ontheroad ilha de elba, itália
LEMBRANÇAS DESENCONTRADAS DE QUATRO NOITES DE VINHO, PRAIA E BICICLETAS ROUBADAS NA ILHA DE NAPOLEÃO BONAPARTE
Se dizem que é em certo ponto da nossa vida que a gente aprende a ver as transformações no mundo, posso dizer que tudo começou comigo enquanto eu pedalava uma bicicleta de 1976 roubada por uma estrada da Itália, cuidando para que não fosse atropelado por caminhões em alta velocidade, torcendo para não ser confundido pela polícia como um imigrante ilegal, como um forasteiro da lei que saiu por aí para experimentar uma nova sensação sobre tudo.

(Bicicleta roubada, descida abaixo, sentido elba, sentido mar)
Era uma ideia do meu irmão fotógrafo Fernando Biagioni, que prometia ininterruptamente que “já tinha feito isso antes” e que era tranquilo, desde que “cuidássemos de desarmar as nossas barracas todas as manhãs antes dos primeiros banhistas chegarem na praia”. Quer dizer, a gente estava deixando Florença em uma terça-feira de calor para ver o mar. Ou talvez fugir para o mar.
E tinha que ser de bicicleta. E ilegal, é claro. Além de não termos muito dinheiro no bolso, nada soa mais reconfortante do que assumir uma aventura desta como um objetivo claro de vida, uma meta a ser cumprida na conta da alma. Um hotel nos custaria não menos que 40 ou 50 euros. Isso era tudo que a gente precisava para gastar com comida em um mês.

Saímos em cinco de Florença com as bicicletas no trem regional e seguimos até a estação de Baratti, uma cidade provinciana encostada na costa, de costas para as montanhas verde e amarelas da Toscana, a 200km de distância da casa que estava morando há poucos dois meses. De lá, pedalamos por mais de 33km, entre subidas e descidas, até chegar em um ponto da praia onde pudéssemos estender a nossa barraca por uma noite.
Jogamos frisbe na escuridão, iluminados pelos filetes de lua que mergulhavam por entre os galhos de uma árvore sombria que desaparecia no céu estrelado.
Na manhã seguinte, sem muitos planos, sem nenhum combinado previamente estabelecido na ordem do destino, decidimos pegar as nossas bicicletas e pedalar mais 20km até Piombino, de onde uma balsa poderia nos levar até a Ilha de Elba. Cruzamos uma curva do continente sob o sol quente do primeiro verão de 2010, um ano bom e importante de se estar vivo. Não levou muito mais do que uma hora para mudar tudo.

(Bernardo e Fernando na balsa. Porto Piombino-Elba)
Dormimos na praia por mais duas noites – ou seriam três? – porém, dessa vez nem de barracas precisamos. Fechávamos os olhos depois de horas de água, de vinho, de conversas desencontradas sobre os mistérios do planeta. Era sempre como se os nossos suspiros pudessem provocar uma avalanche de conforto no mundo, uma sensação iminente e desconcertante de liberdade, de querer largar tudo para sentir os caminhos espalhados pelo tempo.

(Depois das curvas do mar)
Por quatro dias a nossa vida se resumiu a respirar e, em alguns rápidos intervalos, a gente mergulhava as nossas cabeças na água azul e cristalina para tentar enxergar a natureza do mar. Talvez tenham sido os meus primeiros dias de verdade nesta década, onde tudo começou a rodar com sentido, com força, com vontade de deixar o barco navegar. Por quatro dias fomos livres, jovens e eternos. Plenamente eternos. E o melhor: a gente sabia de tudo isso.
fotos fernando biagioni
ontheroad publicado na revista ragga #43, edição de novembro de 2010