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Bernardo Biagioni

portfólio colorido de histórias particulares e jornalismo intimamente subjetivo

ONTHEROAD BARCELONA (ESPANHA)A poesia e um poeta nas ruas de Gaudí. E todas as outras noites atravessadas.

Oscar Wilde. Assim, em letras sibiladas e o L dobrou bem no alto a língua do poeta de rua  que acabou de entrar na conversa. A ilusão é o primeiro dos prazeres, meu amigo. Estamos, pois, abençoados pela fachada ilusionista da Sagrada Família, que cresce impune por cima de uma dúzia de prédios de cinco andares que se enfileram em azulejos coloridos pela rua escura e vazia. Hernandes parou aqui porque sentiu que podia encontrar inspiração para o seu penar. 
Barcelona está criando ódio, ele diz. Corre os dedos pelo cabelo que escorre até os ombros, e ajeita os pés na calçada recortada em flores minuciosamente desenhadas. Quase cai. Sevilha e Madrid também. Repressão e preconceito. Dor e medo. Nem a polícia nem a cidade está sabendo respeitar o sinal dos tempos. Sinal das mudanças e das andanças mundanas. De identidade e de moral. Crise social e econômica.

Catalão nato e, bem, mais Dalí do que Gaudí, dá para ver o medo franzindo seu rosto enquanto desenha uma frase e outra em um espanhol forte e carregado. Hernandez mora dois quarteirões pra cima, duas ruas para dentro, desde 1983, quando abriu os olhos pela primeira vez enxergando alardeado um hospital de arquitetura catalã colorida e ondulada. Na semana passada, ele apanhou de dois neonazistas aqui na porta deste albergue enquanto voltava para casa. Confundiram-no com um estrangeiro. Ou com um viado.
Barcelona mudou, e isto é um fato para qualquer cidade que amanheça, todos os dias, de uma maneira diferente. Os azuis e branco, laranjas e vermelhos de violeta de Gaudí, espalhados em construções inebriantes e entorpecentes, estão derretendo dos prédios e criando uma poça enlamentada de pluralismo e desassossego. Uma explosão de dúvidas e anseios que recebem turistas que chegam hoje, vão embora amanhã, e que estão prontos para qualquer coisa que lhes forem sugerida. 

E quase sempre é oferecido Perigo. Segunda, terça, quarta-feira, e os bares e quebradas estão sempre todos abertos e receptivos, garçonetes espanholas trabalhando semi-nuas, os melhores skatistas do mundo repartindo garrafas de vodka quentes e baratas, baladas-a-beira mar que não se paga entrada, reggae, house e minimal atravessando os glóbulos brancos que regozijam sob os efeitos de MD, a droga desta década.
Nas ruas pela manhã existe toda uma proliferação de extensões perfeitas de uma Scarlett Johanssen bonita e requintada, incontáveis personagens falhos de Woody Allen em busca de diversão e de arte, de traços e de descompassos, de um amor de verão que apague toda a realidade que existe no mundo. A sensação é que o amor da minha vida está aqui, e agora, em cada esquina que cruzo. 

Porque Barcelona não parou no tempo, com as vezes convém imaginar. Ficou mais rápida e impiedosa, mais indecorosa e colorida. Todos os pecados são permitidos entre as ruelas estreitas que cortam a Rambla, o Centro de Arte Contemporânea, a primeira esquerda que vai descer até as primeiras palmeiras do bairro Barceloneta. E qualquer problema a gente coloca na conta do mar. 
Em Barcelona vive uma vontade irreparável de largar tudo e ficar. E é difícil resistir a este desafio ouvindo a brisa soprando de mansinho para cima do Parc Guell que acabou de acordar, com os pássaros saindo de casa, as primeiras turistas do dia fotografando as escadas, as ondas e o horizonte quebrando em azul lá na fundo, se misturando nas notas e compassos de uma banda que começa a afinar seus instrumentos.

Tudo é música, possibilidades e pintura. A vida se converte em arte em uma caminhada simples e fulgás, cortar o bairro gótico, sentar na calçada da casa Batllò, reformada por Gaudí, descer a Rambla com os lábios soltando fumaça e uma toalha nas costas, para estirar na areia e ficar ali, calmo e sereno, esperando o sol vir beijar as almas que caminham em sossego. 
O poeta mais mente do que fala. Hernandez desaparece na esquina como um sopro, como um vulto que veio no vento. Ódio e medo, ele disse, e repetiu tantas vezes. Mas hoje ele dorme tranquilo. Os anseios alinhados em ordem e os cometas colidindo. É que no fundo ele sabe - e sente: doa o que doer, na semana que vem eu ainda quero estar aqui, em Barcelona. E eu também. É claro.

FOTOS: Bernardo BiagioniOntheroad publicado na Revista Ragga #54, edição de outubro de 2011

ONTHEROAD BARCELONA (ESPANHA)
A poesia e um poeta nas ruas de Gaudí. E todas as outras noites atravessadas.



Oscar Wilde. Assim, em letras sibiladas e o L dobrou bem no alto a língua do poeta de rua  que acabou de entrar na conversa. A ilusão é o primeiro dos prazeres, meu amigo. Estamos, pois, abençoados pela fachada ilusionista da Sagrada Família, que cresce impune por cima de uma dúzia de prédios de cinco andares que se enfileram em azulejos coloridos pela rua escura e vazia. Hernandes parou aqui porque sentiu que podia encontrar inspiração para o seu penar. 

Barcelona está criando ódio, ele diz. Corre os dedos pelo cabelo que escorre até os ombros, e ajeita os pés na calçada recortada em flores minuciosamente desenhadas. Quase cai. Sevilha e Madrid também. Repressão e preconceito. Dor e medo. Nem a polícia nem a cidade está sabendo respeitar o sinal dos tempos. Sinal das mudanças e das andanças mundanas. De identidade e de moral. Crise social e econômica.


Catalão nato e, bem, mais Dalí do que Gaudí, dá para ver o medo franzindo seu rosto enquanto desenha uma frase e outra em um espanhol forte e carregado. Hernandez mora dois quarteirões pra cima, duas ruas para dentro, desde 1983, quando abriu os olhos pela primeira vez enxergando alardeado um hospital de arquitetura catalã colorida e ondulada. Na semana passada, ele apanhou de dois neonazistas aqui na porta deste albergue enquanto voltava para casa. Confundiram-no com um estrangeiro. Ou com um viado.

Barcelona mudou, e isto é um fato para qualquer cidade que amanheça, todos os dias, de uma maneira diferente. Os azuis e branco, laranjas e vermelhos de violeta de Gaudí, espalhados em construções inebriantes e entorpecentes, estão derretendo dos prédios e criando uma poça enlamentada de pluralismo e desassossego. Uma explosão de dúvidas e anseios que recebem turistas que chegam hoje, vão embora amanhã, e que estão prontos para qualquer coisa que lhes forem sugerida. 

E quase sempre é oferecido Perigo. Segunda, terça, quarta-feira, e os bares e quebradas estão sempre todos abertos e receptivos, garçonetes espanholas trabalhando semi-nuas, os melhores skatistas do mundo repartindo garrafas de vodka quentes e baratas, baladas-a-beira mar que não se paga entrada, reggae, house e minimal atravessando os glóbulos brancos que regozijam sob os efeitos de MD, a droga desta década.

Nas ruas pela manhã existe toda uma proliferação de extensões perfeitas de uma Scarlett Johanssen bonita e requintada, incontáveis personagens falhos de Woody Allen em busca de diversão e de arte, de traços e de descompassos, de um amor de verão que apague toda a realidade que existe no mundo. A sensação é que o amor da minha vida está aqui, e agora, em cada esquina que cruzo. 


Porque Barcelona não parou no tempo, com as vezes convém imaginar. Ficou mais rápida e impiedosa, mais indecorosa e colorida. Todos os pecados são permitidos entre as ruelas estreitas que cortam a Rambla, o Centro de Arte Contemporânea, a primeira esquerda que vai descer até as primeiras palmeiras do bairro Barceloneta. E qualquer problema a gente coloca na conta do mar. 

Em Barcelona vive uma vontade irreparável de largar tudo e ficar. E é difícil resistir a este desafio ouvindo a brisa soprando de mansinho para cima do Parc Guell que acabou de acordar, com os pássaros saindo de casa, as primeiras turistas do dia fotografando as escadas, as ondas e o horizonte quebrando em azul lá na fundo, se misturando nas notas e compassos de uma banda que começa a afinar seus instrumentos.

Tudo é música, possibilidades e pintura. A vida se converte em arte em uma caminhada simples e fulgás, cortar o bairro gótico, sentar na calçada da casa Batllò, reformada por Gaudí, descer a Rambla com os lábios soltando fumaça e uma toalha nas costas, para estirar na areia e ficar ali, calmo e sereno, esperando o sol vir beijar as almas que caminham em sossego. 

O poeta mais mente do que fala. Hernandez desaparece na esquina como um sopro, como um vulto que veio no vento. Ódio e medo, ele disse, e repetiu tantas vezes. Mas hoje ele dorme tranquilo. Os anseios alinhados em ordem e os cometas colidindo. É que no fundo ele sabe - e sente: doa o que doer, na semana que vem eu ainda quero estar aqui, em Barcelona. E eu também. É claro.



FOTOS: Bernardo Biagioni
Ontheroad publicado na Revista Ragga #54, edição de outubro de 2011

Notes

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